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MISTÉRIOS QUE SE TENTA ESCONDER

 

Por Joana Stichini e Raquel Lito

SÁBADO Nº 132 de 09 Novembro 2006

 
 

O segredo andou a torturá-la durante 11 anos. Os miúdos provocavam-lhe repulsa e o sexo era um tabu. Claúdia (nome fictício) era dominada por fantasmas e pudores. Ninguém sabia ao certo porquê. Só ela, que guardava o pesadelo das viagens de carro onde o padrasto a molestou dos 7 aos 10 anos. Os abusos sexuais nunca chegaram à violação, mas fizeram danos. Aos 9 anos, deu o primeiro beijo - “porque queria muito” -, mas logo a seguir fugiu. Aos 14, já em fase de desespero, procurou a ajuda de um psicólogo. “Foi mau. Não me senti segura, nem compreendida.” Tentou, então, superar o problema sozinha – mas a figura do padrasto continuava lá.

Aos 18 anos decidiu-se finalmente: quis revelar o segredo à mãe. Antes, recorreu a uma amiga para ganhar ânimo. “Tinha receio de me sentir uma puta, pior, que me vissem assim. Mas a minha amiga disse que nada disto mudava a forma como me via.” Depois, vieram as dúvidas: como é que a mãe iria reagir? “Foi muito difícil para ela. Na altura, fiquei muito aliviada, mas depois veio uma sensação de vazio.” Um ano depois, sentiu-se melhor: não só perdeu a virgindade como as coisas até correram bem. “Hoje tenho relações com muito sexo à mistura.”

Apesar de a mãe não se ter afastado do padrasto, Claúdia aprendeu a viver com o passado. Com 28 anos, garante não sentir rancor, mas mantém o temperamento reservado. De vez em quando ainda pensa consultar um psicólogo. “Tenho de estar confiante para não me desiludir de novo.”

Claúdia sente-se possivelmente mais leve só com o facto de ter conversado com a mãe. As capacidades terapêuticas de revelar segredos são um tema recorrente da psicologia. James W. Pennebaker, uma autoridade na matéria, fez várias experiências sobre o tema. Numa delas, o psicólogo americano convidou um grupo de pessoas a escreverem segredos numa folha de papel. Foi imediato: a maioria sentiu uma libertação tão intensa que até a caligrafia mudou. Mais tarde, concluiu que a revelação de segredos estava associada ao reforço do sistema imunitário. Por outro lado, quem escondia episódios traumáticos sofria mais de hipertensão e de gripe, por exemplo.

É um risco para a saúde viver em permanente mistério. “Escondem-se sob uma capa de segurança, mas ao fim do dia chegam a casa e confrontam-se com as suas fragilidades”, diz o psicólogo Vasco Soares.

O psicólogo VASCO SOARES elaborou um teste para avaliar a sua capacidade de manter sigilo. Some os pontos e veja se é bom confidente para familiares, amigos e colegas de trabalho.

Günter Grass refugiou-se na escrita. Isolado na sua casa de Almancil, o prémio Nobel da Literatura de 1999 começou a pôr no papel um segredo com 64 anos: o passado nazi. De pé, com um púlpito à frente ( hábito que herdou das aulas de escultura), escreveu a primeira versão do livro Descascando a Cebola, que sairá em Portugal em Março de 2007. Não recorreu a grandes auxiliares de memória, apenas a um álbum de fotografias e a uma colecção de selos. Mas foi o suficiente para reavivar os tempos em que marchara numa unidade de elite do regime de Hitler. À medida que avançou com a auto biografia – entre as casas do Algarve, Noruega e Alemanha -, os sentimentos de culpa agravaram-se. “Foi um processo doloroso e chorei”, contou na semana passada o escritor alemão, numa passagem por Lisboa.

QUANDO PASSOU A VERSÂO definitiva à máquina, uma velha Olivetti de 1959, Grass só estava concentrado em exorcizar o fantasma nazi: da época de “piolhito” (como chamavam os iniciados) da Mocidade Hitleriana à fase das Waffen-SS, no fim da II Guerra Mundial. O azar veio depois: o segredo foi revelado este Verão e provocou estragos. Em vésperas de lançamento do livro, o nome de Grass caiu na lama. “Transformaram o assunto num escândalo. Foi uma história feia, que provocou grande sofrimento à minha família.”

Mesmo assim, não abranda o ritmo da escrita. Dedica-se à poesia, à olaria e à escultura. Aos 79 anos, diz que sobreviveu à queda e vai manter-se no activo.

O talento para revelar segredos em autobiogarfias transformou Maria Filomena Mónica numa estrela. Culpa da mãe, diz a autora. “Ela roubou parte do meu passado”, queixa-se à Sabado.

A 10 de Abril de 1995, começou a perceber a cabeça da mãe. Nessa tarde, Maria Margarida, doente de Alzheimer, revelou-lhe a identidade do homem esguio, de bigodinho aparado, na casa dos 40 anos, que aparecia numa fotografia antiga, deixada em cima da sua cómoda D. Maria. “Quem é este senhor?”, perguntou Maria Filomena Mónica. “É o meu pai”, respondeu, lacónica, a mãe. Até aí a socióloga pouco sabia da sua ascendência materna. Estava, agora, empenhada em descobrir mais pistas.

Seis anos depois de ver a misteriosa foto, encontrou na papelada da mãe a certidão de nascimento. Surpresa: Maria Margarida era filha ilegítima. Isto explicava muita coisa: porque motivo queria ascender socialmente, era devota da Igreja Católica e não convivia bem com os namoricos da filha. Dos antepassados, Maria Filomena Mónica saltou para a vida efectiva. No seu Bilhete de Identidade fala da relação turbulenta com Vasco Pulido Valente (historiador e comentador político), das infidelidades do primeiro marido e dos seus próprios adultérios. No momento em que terminou o livro, em Março de 2005, tomou uma decisão. “Estava a lavar os dentes quando resolvi publicá-lo.”

A edição das suas memórias só foi comunicada ao actual marido (António Barreto, também sociólogo) e aos filhos, Filipe e Sofia. Vasco Pulido Valente ficou para o fim. Na véspera de apresentar o livro, em Outubro de 2005, deu-lhe a notícia no restaurante O Polícia, em Lisboa. Comentário dele: “Devo aparecer a uma bonita luz.” Ainda tentou demovê-la, mas sem sucesso. O estilo sincero da socióloga, 63 anos, fez efeito: mais de 40 mil exemplares vendidos, uma chuva de emails (dez por dia), alguns leitores a fazerem-lhe confidências, outras a pedirem para publicar os seus segredos. À editora Alêtheia, de Zita Seabra, já chegaram três propostas de autobiografias de gente anónima.

 
 

 

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