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QUEM É MAIS FORRETA

Qual é o mais sovina: quem fica cheio de sede só para não pagar uma garrafa de água num café ou quem aponta as despesas diárias ao cêntimo? Conheça histórias de unhas-de-fome e faça o teste para saber se é um avarento ou um mãos largas.


Por Raquel Lito

SÁBADO Nº 127 de 04 Outubro 2006

 
 

Com tanta mania de poupar, Tiago Villanueva até já passou fome. Quando vai viajar, por exemplo, o médico de 26 anos recusa entrar nos cafés dos aeroportos, porque são um roubo – acha ele... - e só voa em companhias low-cost que não servem comida. “Uma vez, houve um atraso num voo e aterrei em Lisboa completamente esfomeado e com muita sede.” Entretanto, já arranjou outra estratégia para enganar o estômago: antes de ir para o aeroporto, vai ao supermercado mais próximo – e mais barato, claro – para se abastecer de chocolates.

Na escolha dos destinos, Tiago também economiza. As viagens são selecionadas de acordo com a sua lista de conhecimentos: assim, não paga alojamento. Foi desses passeios que lhe saiu a sorte grande. Duas checas que acabara de conhecer em Praga convidaram-no para dormir em casa delas. Detalhe: só havia uma cama e o chão. Tiago aceitou a proposta de dividir a cama pelos três. Mas garante que só tinha uma motivação: poupar dinheiro. Pensou como um forreta e apenas viu números. Dormindo em casa das novas amigas, poupou os 270 euros que tinha previsto gastar num hotel durante uma semana.

Quando souberam da história, os amigos de Tiago não acreditaram que o objectivo de dele era apenas poupar uns euros. Mas ele garante que sim. E isso só ajudou a aumentar a sua fama de forreta. Ele prefere o termo “poupado”. A diferença é que os outros chegam ao fim do mês com a conta a zeros e Tiago põe de parte um terço do ordenado.

COM A MESMA FACILIDADE com que Tiago consegue poupar, os portugueses esbanjam. De facto, não somos um País de sovinas, revela o Banco de Portugal. As estatísticas confirmam: em 2005 a taxa de poupança era de 9,2% e as perspectivas não são melhores . Segundo as previsões, em 2007 a taxa de juro vai subir ao mesmo ritmo da taxa de desemprego. O padrão é comer fora e ficar preso às hipotecas. Não admira que o endividamento das famílias rebente com a escala – 131% em 2004, mais 82% que em 1994. Ou seja, não sobra nada para guardar debaixo do colchão.

A crise económica não atinge Tiago. O salário do médico cresce à medida que refina as técnicas. Dá-se ao luxo de pagar um cartão de livre trânsito num ginásio (80 euros por mês), mas aproveita todos os benefícios, incluindo o balneário onde toma duche diariamnte – mesmo quando não faz exercício.
Quer poupar água em casa.

Para Tiago, o banho a 500 metros de casa é tão natural como ir às lojas de conveniência para folhear os jornais, todos os dias. Só à sexta-feira abre uma excepção: comprar o Público pela revista de Economia Dia D. Quer saber como funciona a cabeça dos ricos como Américo Amorim, Belmiro de Azevedo ou do seu filho, Paulo Azevedo.

O presidente da Sonae-com mantém a tradição de poupança da família. As viagens caras incomodam-no (a Suíça está rscada do mapa), não tem televisão em casa e foca-se no essencial. Paulo Azevedo aprendeu com o pai, que apesar de ser o homem mais rico de Portugal usa o mesmo relógio à 35 anos. No círculo dos milionários, outros pensam assim: poupar nas coisas pequenas para investir nas grandes. Américo Amorim, o magnata da cortiça, dá o exemplo aos funcionários. Come um bife grelhado na cantina da empresa, em Santa Maria da Feira. Além de barato, é mais rápido: 20 minutos chegam para a refeição. Quando regressa ao gabinete, usa outra técnica para poupar tempo: em vez de usar o computador dita tudo ao secretário, que depois desgrava a converça a conversa e faz-lhe o relatório.

Salazar tirar-lhe-ia o chapéu. O homem do Estado Novo era devoto da poupança. Geria a economia caseira a pulso, com a ajuda de D. Maria. Todas as manhãs a governanta recolhia os ovos da criação doméstica e vendia-os nas mercearias da zona. E os aquecedores nunca se ligavam lá em casa, Salazar preferia uma manta nas pernas.

ALEXANDRE BARBOSA, 52 anos, sempre foi poupado. “Tenho pavor de perder as poupanças”, diz o revisor gráfico que aplica 60% do ordenado em certificados de aforro. Pelo aspecto, ninguém diria. Veste-se como um pobre. Não gasta mais de 25 euros por ano em roupa e só viajou duas vezes: uma a Barcelona (aproveitando a promoção da Rodoviária Nacional), outra à Madeira num voo charter a preço de saldo (custou-lhe 15 euros em 1976). A mulher já se habituou às manias de Alexandre, que pediu a separação total de bens. Quando chegam as férias ele fica em casa e ela vai à Costa da Caparica de autocarro. “Quando ela me disse que queria tirar a carta de condução, ameacei rasgar a certidão de casamento.” Não rasgou e mantiveram-se fiéis aos transportes públicos. Uma vez, tiveram uma surpresa extra. Encontraram no metro um saco de plástico branco abandonado. Cheirava bem. Um pouco a medo, os Barbosa avançaram. “Seria uma bomba?”, perguntou ela. Afinal, era um frango assado. Não iam desperdiçar a oportunidade. Levaram-no para casa e comeram-no ao jantar.

Quando o assunto é dar em vez de receber, o revisor gráfico é mais ponderado. Só dá esmolas quando está mesmo bem disposto. Há um mês ofereceu 30 cêntimos a um adolescente. O rapaz, na casa dos 15 anos, tinha pingas de sangue na t-shirt, porque fora assaltado. Precisave urgentemente de pedir ajuda à família e não tinha telemóvel. Pergunta de Alexandre: “Qual é a rede para onde quer ligar?”. Surpreendido, o jovem respondeu que era “91”. Ele não se impressionou e foi ao porta-moedas, sempre cheio. Tirou 30 cêntimos e a mulher uma moeda de 20 cêntimos. “É que a chamada telefónica fica muito cara porque a minha rede era 96.” Depois, manteve-se no local para comfirmar que o jovem ia ao café da esquina telefonar à família. Justificação? “Não gosto que me enganem.”

O comportamento de Alexandre roça o doentio, dizem os especialistas. Em Psicologia a avareza tem outro nome: personalidade retentiva, um palavrão que significa a necessidade de guardar coisas. Com a idade, a doença vai-se agravando. “Na vida adulta o dinheiro é um dos bens mais valiosos. A pessoa retentiva tem uma relação afectiva com ele, cada vez que tem de o gastar é como se perdesse um pouco de amor”, explica o psicólogo Vasco Soares. Os primeiros sintomas aparecem entre os 2 e os 4 anos.

O psicólogo VASCO SOARES elaborou um teste para avaliar o seu grau de avareza. Some os pontos e veja se é um forreta doentio.

Em Leonor Almeida os sinais apareceram aos 5 anos, quando convencia as amigas a comprar chocolates as meia. Já mais velha, aos 11, dava-lhe um enorme gozo despejar o mealheiro em cima da cama. “Cheguei a ter 600 euros no porquinho”, diz a estudante de Economia, de 19 anos. Hoje prefere depositar as poupanças no banco, mas continua atenta ao saldo. “Todos os dias escrevo as despesas na minha agenda, incluindo os cafés.”

Menos entendida em contas, a psicóloga Sandra Costa, 31 anos, tem outra estratégia. Quando recebe os amigos, apaga as luzes e acende as velas. “O ambiente fica acolhedor e poupa-se na electricidade.” Por isso, as contas bimestrais da EDP nunca ultrapassam os 25 euros. O que para um forreta ainda é um roubo.

 

 

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