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Relação Mães e Filhas

Coexistem dois extremos na relação mãe e filha: a cumplicidade e o conflito. Estes ingredientes explosivos são a base de uma das relações mais importantes na vida das mulheres. A fase mais complicada surge na adolescência, quando a mãe quer continuar a ser a confidente e amiga, mas a filha quer mais independência.

Por Vanda Marques

PAIS & FILHOS Nº 196 Maio 2007

 
 

Basta uma troca de olhares para a mãe, Gabriela, perceber se o dia correu bem à filha Diana. Esta cumplicidade foi-se construindo dia-a-dia e, agora com 11 anos, Diana sabe que nem precisa de dizer o que está mal para a mãe saber. «A mãe é especial, porque posso conversar com ela sobre tudo», diz Diana. Maria Henriqueta, de 52 anos, também tinha essa intimidade com a filha, mas, quando Ana Filipa chegou à adolescência, muita coisa mudou. « Aos 16 anos, ela fechou-se muito. Só quando sou eu a insistir é que ela se abre um bocadinho», diz. Mesmo assim, a relação com a mãe continua a ser vital.

Ana tem uma terapia diária de que não abdica – chegar a casa no final do dia e ter direito a 20 minutos de conversa com a mãe. Nessa altura, a filha de 18 anos desabafa sobre o que se passou no seu dia: o professor chato, o dilema da amiga ou o cansanço dos estudos. Não existe outra pessoa co quem Ana Filipa pudesse ter este ritual, e só há uma restrição: falar de assuntos mais íntimos. O tema rapazes é algo que a jovem evita. «Não sei porquê. Há coisas que são mais fáceis de contar às amigas do que às mães. Talvez porque sabemos que as mães nos podem dar sermões ou ficar preocupadas e as amigas não...»

Muitas mães já sentiram esse afastamento e talvez se questionem: o que é que as amigas têm de tão especial que eu não tenho? É simples: a mãe é a cuidadora e, perante ela, a filha não quer falhar. Com as amigas não existe essa pressão. «As mães têm uma função de protectoras e não de amigas que deixam fazer tudo», aponta o psicoterapeuta e director da clínica Insight, Vasco Soares. E vai mais longe: «Quando as mães se querem transformar em amigas, as filhas sentem-se desprotegidas, sem terem alguém que lhes imponha regras.»

A diferença de idades entre mãe e filha também pode contribuir para que as filhas não façam tantas confidências às mães, defende o psicoterapeuta. Maria Henriqueta, doméstica, e Ana, estudante do 1º ano de Relações Públicas, sabem que há um tema em que a diferença de idadesé muito clara: os namoros. «Para mim, a mulher tem de ser conquistada, os homens é que têm de vir atrás de nós e não o contrário», argumenta a mãe. Já a filha defende que as mulheres devem lutar pelo amor tanto quanto os rapazes. Esta diferença de opiniões pode transformar-se num braço de ferro. «A mãe é um modelo importante, mas, devido à diferença de gerações, compete à filha ir recusando aquilo que a mãe lhe vai impondo. Desta forma cria a sua autonomia», explica o psicólogo Dr. Aires. Mas nem sempre é fácil.

COMO FUNCIONAM AS DISCUSSÕES
Falar da relação mãe e filha sem mencionar os conflitos é impossivel. Em média, mães e filhas discutem de dois em dois dias, enquanto os filhos a cada quatro. Os dados, que resultam de um estudo da Universidade de Cambridge, de 2004, apontam ainda que as discussões entre as mulheres duram cerca de quinze minutos, enquanto os conflitos entre mães e filhos rondam os seis.

Na forma de discutir também há diferenças. No caso das mulheres, indica Sherry Beaumont, professora de psicologia na Universidade Northern British Columbia, no Canadá, as discussões são mais acesas e fortes. Durante os conflitos, as raparigas falam mais depreça, interrompem a mãe e ficam mais perturbadas emocionalmente do que os rapazes. Os filhos discutem menos, e não ficam tão abalados. A psicóloga Sherry Beaumont defende que os conflitos entre mãe e filha são normais e que, apesar de serem mais intensos, são elas que retâm mais sentimentos positivos depois da discussão.

Os temas de confronto podem ser dos mais simples, como os horários de saídas, as tarefas domésticasque ficaram por fazer ou a roupa. Este é um tópico de discórdia entre Ana e Maria, mas o que irrita a filha não é a opinião da mãe, mas a estratégia utilizada: a crítica disfarçada. «Ela nunca me diz que não posso fazer isto ou aquilo, apenas critica, parece chantagem emocional», diz a jovem. Os exemplos são muitos. Quando Ana quer ir de carro para a faculdade e não de comboio, ouve a mãe dizer «vais gastar gasolina...» Ou então quando vai sair à noite e a mãe atira: «Isto é que são horas de sair...» A troca de palavras menos simpáticas está garantida. Mas Ana tem uma justificação para o comportamento da mãe. «Os pais percebem mais cedo que nós crescemos, as mães não.»

A professora de linguística norte-americana, Deborah Tannen, escreveu um livro sobre o assunto. «Você Vai Sair Assim? - Como Entender a Relação entre Mães e Filhas», publicado no Brasil, explica o porquê das tenções entre mãe e filha. «A mãe quer ver a filha sempre a melhorar, pode ser na aparência ou nas decisões importantes da vida. A filha, por outro lado, quer ser vista como perfeita.Como as expectativas são distintas, uma acredita que está a demonstrar afecto ao fazer comentários, mas a outra vê isso como uma crítica», afirmou Deborah Tennen á revista brasileira «Veja».

O Dr. Aires dá outra explicação. «Pode haver mais pressão em relação ao comportamento das raparigas, pois as mães vêem as filhas como um prolongamento delas próprias.»

OS ASSUNTOS TABU
Maria é divorciada e tem dois filhos: a Mariana de 17 e o Gonçalo de 13. Para esta mãe de 50 anos, é preciso muito jogo de cintura na educação. Especialmente com a filha. «Tento acompanha-la ao máximo e perceber as diferenças entre a minha geração e a dela, mas não posso abdicar dos meus valores», diz. Maria conta que nunca sentiu ciúmes das amigas da filha, nem do namorado. A única coisa que lamenta é que, em determinados assuntos, a filha evite falar com ela. O sexo é um deles. «A Mariana foge à conversa, mas apanhou uma mãe que não o faz», argumenta.

A caixa de preservativos não era própriamente o objecto que Maria estava à espera de encontrar no saco da filha, mas não entrou em pânico. O que não contava era que Mariana tentasse esconder o assunto. «Não tive coragem para lhe dizer...», recorda a adolescente. Depois do primeiro choque, conversaram e a mãr marcou-lhe uma consulta no ginecologista. Mas este assunto continua a ser desconfortável para a filha. Cada vez que Mariana precisa de uma caixa de contraceptivos, não pede directamente, coloca a caixa vazia na mala da mãe, que entende logo a mensagem.

Mariana acha que os conflitos que tem com a mãe são normais, e podem começar por coisas tão banais como um frasco de perfume. A jovem não resiste a experimentar as diferentes águas-de-colónia da mãe e Maria só se apercebe disso quando, misteriosamente, o frasco novo está a meio... «O facto de sermos duas mulheres dificulta a relação, porque somos mais complexas», diz a adolescente.

Quando se fala em conflitos, pensa-se normalmente em algo negativo, mas as discussões têm um papel muito importante – embora custoso – para o desenvolvimento pessoal . «Os conflitos ajudam a desenvolver a capacidade intelectual, a capacidade de argumentação e a estruturar a personalidade. É muito importante que os jovens aprendam a defender os seus pontos de vista», diz o Dr Aires. Apesar dos confrontos, ambas defendem que têm uma boa relação. «Sou muito ligada à minha mãe . Apesar de sermos muito diferentes, sou uma filha galinha e não consigo estar muito tempo longe dela», confessa Mariana.

O LADO MAIS EXPLOSIVO DOS CONFLITOS
A mãe de Mariana não teve uma relação tão boa com a sua própria mãe. Ainda hoje, Maria se lembra dos sapatos que a mãe a obrigou a comprar. Eram uns mocassins de verniz com uma pala encarnada. Maria tinha na altura 16 anos e ódiava-os. Mas quando a mãe decidia, não havia volta a dar. Para resolver a questão, era preciso uma solução drástica. Na festa na casa da tia, Maria arrancou uma das palas e escondeu-a num jarrão. O plano era perfeito – tinha perdido a pala. «Ela sempre quiz comandar a minha vida. Mas não só. Senti que ela queria ter a minha juventude e até tinha cúmes de mim», lembra.

As relações mais explosivas com as mães não são assim tão raras, dizem os especialistas. «A nossa sociedade é muito matriarcal e as mulheres estão abituadas a ter protagonismo. Normalmente, quando nasce uma filha, a mãe cede-lhe esse centro de atenções. Caso a progenitora seja insegura, tenha baixo auto-estima ou não sinta o apoio do marido, o inverso acontece e mães e filhas tornam-se quase adversárias». Foi isso que Maria sentiu. Quando fez 17 anos, Mariana reparou que a maneira de vestir da mãe se tornou mais juvenil. Foi a partir dessa altura que se apercebeu que, apesar de ter mais cinco irmãos, aquela situação era só com ela. A linguistica norte-americana, Deborah Tennen, explica esta situação no seu livro. «Mães e filhas podem competir para ver quem é a mais atraente, a mais bem sucedida, a mais bem vestida. A mãe pode sentir inveja de ver a filha ter oportunidades que ela própria não conquistou. Também pode acontecer a filha sentir que não está à altura das conquistas da mãe. Isto ocorre em muitos aspectos, da forma de se vestir à maneira de educar os filhos.»

A carreira foi outro ponto de discórdia. Maria queria seguir decoração, mas a mãe convenceu-a de que turismo era melhor. Só mais tarde a filha percebeu porquê. «Sempre tive jeito para o desenho e a minha mãe também. Porém, ela acabou por ir para educação física. Acho que ela me queria impedir de cumprir o sonho dela, por isso é que rasgou todos os meus desenhos», recorda sem rancor. Agora, aos 50 anos, lamenta o que se passou, mas tem a certeza que a mãe, doente à 22 anos, também o lamenta. «A disputa entre mãe e filha começa por volta dos 5 anos, quando a filha vê a mãe como uma rival na procura da atenção do pai. Este fenómeno é circunstancial e acaba por desaparecer, mas algumas mães podem ficar com esta mágoa, ainda que inconsciêntemente», aponta Vasco Soares.

Mãe e filha têm uma das relações mais complexas, porém, das mais duradouras. Segundo uma investigação de Karen Fingerman, da Universidade Pennsylvania State, entre 80% a 90% das mulheres que chegam à meia idade mantêm uma forte ligação com a mãe. Outra das conclusões é que as mulheres têm mais facilidade do que os homens em manter relações profundas e de grande cumplicidade.

A MÃE É MUITO MAIS DO QUE UMA AMIGA
Diana, de 11 anos, sabe que há alturas para a brincadeira e outras para as regras. E com a mãe por perto é mesmo assim. «A mãe é para as coisas mais sérias, o pai é mais para a brincadeira», diz a criança. Quanto a discussões, Diana diz que com mãe os conflitos são mais fáceis de resolver do que com as amigas. «Quando me zango com as minhas amigas, é dificil de dar o barço a torcer. Com a mãe, passados uns minutos, é como se nada tivesse acontecido.»

Mesmo assim, os conflitos presistem, quer seja porque os trabalhos de casa são feitos em cima da hora, porque o quarto está desarrumado ou porque Diana tem o hábito de vestir roupa fresca quando ainda está frio.

Gabriela, professora primária, não sabe como vão correr as coisa quando a filha chegar à adolescência. Mas recorda-se da época em que deu algumas dores de cabeça à mãe. «Queria sair com os meus amigos, estar sempre com eles e a minha mãe não concordava.» Havia discussão quase todos os dias, mas Gabriela acabava sempre por sair. «Na adolescência, há o empolar das situações e das posições, em busca da independência . Esta procura implica muitas vezes que a filha se afaste da mãe», defende o psicólogo Vasco Soares. «A melhor maneira de lidar com estes conflitos é que as mães percebam que têm de dar espaço e liberdade para as filhas fazerem a suas escolhas», acrescenta.

Esses conflitos foram fácilmente ultrapassados, porque tanto a mãe como a filha nunca deixaram de conversar. Hoje em dia, a mãe de Gabriela é também a sua grande amiga. A pessoa com quem pode contar para desabafar, pedir ajuda ou apenas se divertir. A relação foi se reforçando ao longo dos anos e a professora recorada-se sempre dela quando pensa na melhor maneira de educar a filha. Também é fácil perceber porquê. «A relação com a mãe é a primeira que estabelecemos na vida. Mas é muito melhor ser mãe do que amiga. Porque mãe é mais do que uma amizade, é um amor muito forte que fica para toda a vida», explica o psicoterapeuta Vasco Soares.

 

 
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