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O SEGREDO ESTÁ NO TIQUE

 

Alguns jogadores, por stress ou timidez, refugiam-se nos tiques.
Tudo para ajudar e ter um desfecho positivo.

Por Mário Ventura

FOCUS Nº 438 de 05 Março 2008

 
 

Começou há cerca de três anos o calvário de Pedro Mantorras, jogador do Benfica. Esta época as oportunidades dadas pelo técnico José António Camacho ao internacional angolano têm sido escassas, embora o jogador continue a mostrar-se disponível. No passado dia 8 de Fevereiro o avançado abordava a contratação de Makukula, o internacional português que veio reforçar o ataque encarnado. Na altura, Mantorras referiu que “quem ganha com a concorrência é o Benfica” e questionado a cerca da sua recuperação, garantiu que não sente dores e que o tão badalado coxear é, afinal, um tique. “Fiquei dois anos de canadianas e isto passa com o trabalho específico que tenho vindo a realizar. No entanto, não vamos dizer que será hoje ou amanhã que vou deixar de coxear. Não sinto dores quando jogo, mas defendo este pé à três anos e agora tenho de perder este tique.” Vasco Soares, psicoterapeuta na Clínica Insight, considera “possível que um indivíduo que tenha ficado a coxear durante um período temporal longo tenha alguma dificuldade inicial para se adaptar a uma postura de marcha correcta”. Porém, o tempo de adaptação é curto, logo “se for acompanhado de fisioterapia, não há razão para alguém ficar com um tique desse tipo”.

 

É certo que há tiques e tiques, mas a verdade é que todos incomodam e inquietam quem os vê e quem os tem. Há aqueles que saltam à vista, como um piscar de olhos repetitivo, e aqueles que não se notam logo à primeira, como um tossir frequente. Tiques que se formam devido à contracção automática e repetida de um pequeno músculo ou grupo de músculos, com uma frequência variável e em função do grau de tensão nervosa. Depois de instalado no sistema nervoso, o tique repete-se regularmente e sem interrupção, excepção feita ao período do sono, altura em que desaparece por completo. O curioso nestes movimentos é não terem qualquer finalidade e a pessoa ter a perfeita noção de que o afecta, ainda que não consiga impedi-los. O impulso para repetir o tique é inconsciente e a sua realização leva mesmo a uma redução da tensão e à sensação de libertação, ao passo que a sua repressão causa até um certo mal-estar.

“Os tiques ocorrem por razões que se prendem com a VIDA EMOCIONAL”

Actualmente, estima-se que cerca de 30 pessoas em cada 100 000, na população em geral, são atingidas por problemas deste género, num número que está a aumentar, sobretudo no segmento mais jovem, já as crianças tendem a ter momentos de ansiedade, seja na actividade escolar, seja devido a tensões familiares. São muitas as pessoas que sofrem, pelo menos uma vez na vida, deste tipo de problema, o que não significa qualquer anomalia do sistema nervoso ou um comprometimento das estruturas neuromusculares. Os tiques são, simplesmente, uma expressão física de um período de tensão emotiva em pessoas predispostas. Como explica o psicoterapeuta Vasco Soares, os tiques “ocorrem por razões que se prendem com a vida emocional dos indivíduos surgindo como forma incontrolada e não consciente de expressar tensão acumulada”. De entre todos os tiques, os mais habituais são aqueles que se manifestam de uma forma completamente comum, como roer as unhas (onicofobia), mexer constantemente no cabelo, enrolando-o com o dedo (tricotilomania), aclarar a garganta em breves intervalos ou fungar constantemente. Vasco Soares relaciona directamente os tiques com situações de stress, já que a sua “acumulação pode encontrar um canal de alívio pela via dos tiques, embora o mais comum no stress seja uma exteriorização física mas do tipo mal-estar, como dores de cabeça, distúrbio digestivo e dores lombares”.

 
Também no futebol, os tiques são vários, desde os vocais aos motores. E se o tique de Pedro Mantorras pode ser considerado um tique motor, a avaliar pelas suas próprias palavras, então Cristiano Ronaldo, o internacional português do Manchester United, é um exemplo perfeito para ilustrar um tique vocal, já que de todas as vezes que fala para os meios de comunicação, as frases começam inevitavelmente por um “epá”. Mas o internacional português que encanta por terras de Sua Magestade tem também um certo tique motor quando está em campo: antes de iniciar os lances de bola parada, seja no Manchester United seja na Selecção Nacional, o atleta tem sempre a tendência para abrir as pernas antes de os marcar. Método de concentração, dizem uns, mero detalhe, dizem outros, mas o facto é que o número sete dos red devils já não passa sem esse... tique. Além de Cristiano Ronaldo, muitos outros jogadores, por melhores que sejam dentro de campo, não têm o mesmo brilhantismo na altura de falar à impressa. Nestas situações, os tiques nervosos vêm ao de cima, inconscientemente e de forma repetida.
 
Em Portugal, nos três grandes, três casos de timidez e dificuldade de falar em público, com tiques à mistura: Liedson (Sporting) mexe na sobrancelha, Petit (Benfica) prefere coçar a orelha, ao passo que Ricardo Quaresma (FC Porto) não se faz rogado e coça o nariz, invariavelmente, nastas situações, para além de mostrar a língua sempre que festeja um golo. “Os gestos relacionados com tiques faciais podem estar associados a alguma insegurança perante os meios de comunicação, embora se tratem de pessoas que estão correntemente no foco das televisões”, refere Vasco Soares. “Os toques faciais são formas de evitar a total exposição perante um ambiente que não é do nosso domínio , uma vez que a face é a parte mais exposta e mais vista pelos outros.”
 
No futebol, assim como um pouco por todas as modalidades, os cuidados com a imagem e os gestos de vaidade são comuns. O corte de cabelo é um dos pontos em que a maioria dos jogadores foca a sua atenção. Existe até aqueles que, com cuidados redobrados, chegam a ganhar tiques. Nuno Gomes é o exemplo mais conhecido de quem não passa muitos minutos sem ajeitar o cabelo. Apesar deste poder ser um gesto para afastar os cabelos dos olhos, Vasco Soares coloca ainda a hipótese de estar relacionado “com factores da vida interior – inseguranças, angústias, preocupações – e não apenas gestos de vaidade, já que estes são mais encenados do que involuntários”.
 
Lá por fora, são também muitos os jogadores com tiques característicos. Giovani dos Santos, o avançado mexicano do Barcelona, de apenas 18 anos, tem também o gesto involuntário de Nuno Gomes, para ajeitar o cabelo durante os jogos, embora use invariavelmente uma fita para o prender. Em Itália, o experiente defesa-direito brasileiro Cafu é célebre pela “pastilha elástica virtual”, já que é comum vê-lo a mascar dentro de campo, sem que tenha algo dentro da boca. Em Inglaterra, na companhia de Cristiano Ronaldo, também o jovem português Nani já habituou os amantes do futebol às fintas e sprints com a língua colocada contra a bochecha. Talvez seja um método de concentração, talvez não. Mas que é tique, lá isso é.
 
Muitas vezes, estes distúrbios podem estar relacionados com distúrbios neurológicos. A síndrome de Tourette é um desses casos, caracterizada por movimentos abruptos, rápidos e involuntários ou por vocalizações que ocorrem repetidamente. Os sintomas desta síndrome incluem tiques motores múltiplos e pelo menos um tique vocálico, sendo que precisão de estar presentes por algum tempo durante a doença, não necessariamente de forma simultânea.
 
No futebol português, está um jogador cujo o tique dificilmente passa despercebido. Marat Izmailov, emprestado ao Sporting, chegou no Verão e logo no seu primeiro jogo oficial o deu a conhecer. Logo aí, o tique estava descoberto e é característico da síndrome de Tourette, “como pode ser de qualquer outra ou de nenhuma”, defende Vasco Soares. “Seria necessário um diagnóstico para se chegar a qualquer conclusão.” O tique do jovem internacional russo consiste num movimento brusco do pescoço para a frente, quase como se estivesse a dar uma cabeçada.
 
Na opinião do psicoterapeuta Vasco Soares, este tipo de tique pode “envolver situações de grande carga ansiogénica e não apenas ligeiras questões de insegurança ou pouco à vontade como os anteriores, assim como pode ser fruto de patologias orgânicas – do foro físico e não psicológico – que provocam movimentos espasmódicos involuntários”. É um tique estranho, é certo, mas, ainda assim, não é caso único no panorama futebolístico. O excêntrico ex-jogador Paul Gasgoine tinha um tique quase idêntico, caracterizado como um movimento brusco do pescoço para um dos lados, quase como se tivesse adormecido durante uns milésimos de segundo e depois voltasse a acordar.
 
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